domingo, 22 de novembro de 2009

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
*
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
*
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
*
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
*
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
*
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
*
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
***************************************************
Poeta:Ferreira Gullar

Um comentário:

Maria Teresa disse...

Quanta sapiência! Levamos a vida toda tentando nos traduzir, teimando em não ver os reflexos de nossa outra face no espelho de nossos labirintos. Poema digno de seu blog, Gabriela!
Beijo.